Mhysa - Fantasii

Mhysa - Fantasii
  • Ano: 2017
  • Selo: Halcyon Veil
  • Produção: MHYSA e lawd knows
  • # Faixas: 11
  • Estilos: Experimental, Glitch Hop, Ambient Music
  • Duração: 34:00
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Poucos artistas têm um release tão bem definido em poucas palavras como a rapper/produtora norte-americana Mhysa. Segundo este, ela é “uma diva queer negra e uma popstar underground pela cyber-resistência”. Cada palavra dessa definição explica metonimicamente uma parte da rica e diversa essência de Mhysa, além de afirmar seu orgulho categórico em se afirmar como uma mulher negra. Com lançamentos tímidos no SoundCloud, a produtora começou a nos mostrar seu universo criativo há alguns anos, como uma forma de diário no qual ela é livre para expressar opiniões e valores não apenas com palavras, mas com sonoridades. Este, aliás, mostrou ser um de seus maiores talentos: a facilidade de transposição de linguagens artísticas, criando assim uma obra extremamente densa e complexa, porém, pouquíssimo conhecida fora do cenário underground da Filadélfia. Agora, ela lança seu disco de estreia e, com uma força descomunal, Mhysa nos entrega mais do que um álbum; uma odisseia.

Fantasii é uma obra que pode ser interpretada e apreciada em diversos níveis, alguns dos quais certos ouvintes jamais serão capazes de se identificar. Há três facetas que merecem destaque. A primeira é a desconstrução musical e a difícil tarefa de nomear sua sonoridade. Com toques experimentais björkianos e uma poética extremamente sensível e introspectiva, as doze faixas compostas e produzidas por Mhysa não necessitam ser enquadradas em gêneros. De certa forma, é como se aquela característica queer de sua apresentação guiasse sua produção musical, uma vez que a Teoria Queer aborda exatamente estas questões de como o gênero é extremamente fluido e produto de um constructo social intenso. Assim, Fantasii pode ser melhor interpretado se considerado como os próprios gêneros humanos: diversos e complexos. Esta abordagem e conexão entre a Teoria Queer e o experimentalismo são um dos pontos mais fantásticos do disco.

A segunda face do registro com a qual algumas ouvintes podem se identificar é a de expor as vivências, anseios e pensamentos de uma mulher negra. Por quase todo o disco, é possível identificar frases da produtora que comunicam Fantasii como uma espécie de diário ou até mesmo um confessionário, no qual tudo é contado com extrema sinceridade. Há referências da cultura negra em diferentes partes do álbum, e de diferentes formas. Tonight, por exemplo, é um cover extremamente reverberado da música Naughty Girl, do trio Destiny Child. Mas, em outros momentos do disco, há referências de Harriet Tubman, americana abolicionista, Prince, TLC e Janet Jackson. Além de nomes explícitos, Mhysa também traz à tona homenagens a cenários específicos na história do Pop negro dos Estados Unidos, como o Gospel em Glory Be Black, o R&B dos anos 1990 em Bb e o Trap violento de Strobe - que, segundo a própria, foi composto como uma música para clubes de strip.

Por fim, a terceira face do disco se revela no aspecto imensamente psicológico da obra. Com o apelo extremamente pessoal e introspectivo, Mhysa deixa parte de si à mostra e compara o disco a uma espécie de inferno de Dante reverso, no qual, ao invés de nos levar cada vez mais para baixo, ela tenta nos levantar nos mostrando seus sonhos, ambições, esperanças e, como o próprio disco diz, suas fantasias. Além disso, ela nos guia por essa jornada de uma forma completamente inesperada e diferente das representações comuns destas palavras mencionadas. Aqui, os sonhos não refletem aquele esteriótipo Dream Pop e/ou Chillwave, se aproximando de bruscas construções de paisagens sonoras relativamente tensas. Não é um trabalho Pop, embora ele o homenageie a todo instante. Dessa forma, é justamente dessa nova representação que o disco ganha o status imersivo que tem, como se estivessemos tão dentro da cabeça de Mhysa que nos esquecemos nossos próprios pensamentos e valores e nos entregamos totalmente ao imaginário da artista.

Fantasii é uma obra de arte no sentido mais puro do termo. Ele nos traz uma sensibilidade única, ao mesmo tempo que uma crítica social bem construída e bastante explícita. Ele revisita sonoridades consagradas, ao mesmo tempo que é maduro o suficiente para desconstruí-las. Ele nos apresenta o talento imensurável de Mhysa como compositora, rapper, poeta, artista e crítica de seu tempo. É certamente um evento que deixa seu marco na história musical contemporânea. Uma odisseia profunda sobre a sensibilidade humana e as lutas das minorias. Um disco que será atual por muito tempo.

(Fantasii em uma faixa: Bb)

Bom para quem ouve: Arca , Bjork , Mykki Blanco

Artista: Mhysa

Marcadores: Glitch Hop, Ambient Music, Experimental